domingo, 3 de fevereiro de 2013

CONSUMIDOR - Dinheiro não combina com amigos e parentes


Assumir compromissos financeiros em nome de familiares ou do camarada do peito leva milhões de pessoas à lista do SPC

VÂNIA CRISTINO
Os brasileiros ainda não aprenderam com o velho ditado popular — consagrado na música Faca que não corta, de Tião Carreiro e Pardinho — que diz: “Dinheiro emprestado é um grande perigo, a gente perde o dinheiro e também perde o amigo”. As sábias palavras ganham relevância quando se olha para as pesquisas que traçam o perfil dos inadimplentes no país. A camaradagem com familiares e conhecidos é o terceiro motivo que mais leva consumidores a ficarem com o nome sujo na praça, atrás apenas do descontrole de gastos e do desemprego. Na lista de favores, estão pegar empréstimo para pai, mãe, irmãos, primos e o amigo do peito, ceder a eles o cartão de crédito e ser fiador ou avalista de um contrato de aluguel e de um financiamento de carro.

“O problema é grande, e tende a se agravar nos próximos anos. Logo, nós veremos a inadimplência relacionada a relações familiares e de amizade ocupar o primeiro lugar na lista de devedores”, adverte o educador financeiro Reinaldo Domingos, presidente do Instituto DSOP. “Trata-se de um fato gravíssimo”, diz. Responsável pelas pesquisas que mostram o forte crescimento do calote causado por terceiros, Fernando Cosenza, diretor de Inovação e Sustentabilidade da Boa Vista Serviços, administradora do Serviço de Proteção ao Crédito (SPC), alerta que o hábito de emprestar o nome para empréstimos e financiamentos está arraigado à cultura nacional e não encontra paralelo em outros países, sobretudo nos de economia mais desenvolvida.

No exterior, quando precisa de dinheiro, a maioria das pessoas procura um banco. Nem mesmo ceder o carro para um conhecido é comum. Já, no Brasil, os pedidos de empréstimos e de aval por amigos e parentes na hora de alguma dificuldade é grande. Não se sabe, porém, se essa é a primeira opção para sair do aperto ou se há uma tentativa inicial de obter recursos de outra forma que tenha sido frustrada. “Até pouco tempo atrás, o crédito era para poucos. Isso mudou, mas permaneceu o costume de pedir o nome de alguém emprestado”, afirma Cosenza.

Ele ressalta que as pessoas sabem que correm algum risco com essa prática, mas não têm toda a dimensão do prejuízo com que podem ser obrigadas a arcar. “Mais de 90% dos empréstimos são feitos para socorrer parentes, vizinhos ou amigos muito próximos. Quando você questiona a pessoa sobre isso, ela diz que não pode dizer não, que o outro estava realmente em dificuldade, com o cartão bloqueado e coisas do gênero”, relata. Nos levantamentos feitos com consumidores nessa situação, o constrangimento sempre surge como um dos fatores que os levam a permitir que o próprio nome fosse usado por um terceiro, além da solidariedade, é claro. “Existe um companheirismo grande nas classes de mais baixa renda. As pessoas agem de boa fé, esperando que o outro, realmente, quite a dívida, o que raramente acontece”, diz Vera Remedi, assessora executiva do Procon-São Paulo.

Vera conta que são inúmeras as pessoas que procuram o órgão de defesa do consumidor para tentar se livrar de uma situação como essa. “Muitos não têm nem mesmo a noção de que a responsabilidade pelo pagamento é dele, e não do outro. Há casos em que o consumidor chega aqui e fala que a parte dele no cartão vem sendo paga direitinho, mas que o amigo que ficou de quitar a outra parcela o faz parcialmente ou, às vezes, nem isso.” 

Tormenta constante
Estender a mão a alguém, em muitos casos, pode custar caro e provocar muita dor de cabeça. A comerciante Paula Aguiar de Moura, 35, é a prova concreta disso. Em dezembro de 2011, ela usou o cartão de crédito para abastecer a lanchonete do cunhado. Só que ambos não contavam que a dívida de R$ 5 mil se estenderia até hoje. “Ele não pôde pagar, nem eu. Com isso, os juros foram aumentando os débitos, que ficaram impagáveis”, conta. “Estou em uma situação de dar dó”, lamenta. Reinaldo Domingos, presidente da Instituto DSOP Educação Financeira, diz que Paula pecou por excesso de boa-fé. Por isso, é taxativo: “Em hipótese alguma, se deve emprestar o nome ou dinheiro a terceiros. É a maneira mais fácil de perder um amigo”.

FONTE:http://impresso.correioweb.com.br/app/noticia/cadernos/economia/2013/02/03/interna_economia,71565/dinheiro-nao-combina-com-amigos-e-parentes.shtml - 03/02/2013 

POSTADO POR: JOSENY CANDIDO - CRCS/PMDF
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