quarta-feira, 24 de abril de 2013

TERRORISMO » Sinais da Al-Qaeda



Atentado contra a embaixada francesa na Líbia se segue à prisão, no Canadá e na Espanha, de suspeitos de integrar a rede criada por Osama bin Laden. Mesmo debilitada, organização segue como ameaça

Renata Tranches

Destruição na representação da França em Trípoli: vingança pelas intervenções militares contra Kadafi, em 2011, e contra os extremistas islâmicos do Mali (Ismail Zitouny/Reuters
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Destruição na representação da França em Trípoli: vingança pelas intervenções militares contra Kadafi, em 2011, e contra os extremistas islâmicos do Mali

Um atentado na Líbia, prisões na Espanha e um ataque frustrado no Canadá. Apesar de não estarem diretamente ligados, os três episódios se relacionam ao terrorismo internacional e têm um denominador comum: a suspeita recai sobre a rede Al-Qaeda e suas ramificações. Na Líbia, o ataque foi contra a Embaixada da França, em Trípoli. A explosão deixou dois guardas feridos, mas o carro-bomba tinha poder de destruição para causar uma carnificina, segundo o ministro francês das Relações Exteriores, Laurent Fabius. Na Espanha, foram presos dois supostos militantes, um argelino e um marroquino, que se teriam “radicalizado nos últimos tempos”. No Canadá, a Justiça manteve a prisão preventiva de dois estrangeiros — cuja origem não foi revelada — acusados de planejar um ataque contra um trem de passageiros entre Toronto e Nova York. As autoridades espanholas e canadenses relacionam os detidos a células da Al-Qaeda. 

Com seus santuários praticamente destruídos pela campanha consistente de bombardeios norte-americanos na fronteira entre Afeganistão e Paquistão, a rede fundada por Osama bin Laden — morto em 2011 por um comando de elite dos EUA — acusa o golpe. Na avaliação do especialista em terrorismo Alex Abrahms, da Universidade Johns Hopkins (Maryland), a organização tem procurado incentivar a ação dos seguidores onde quer que estejam, para compensar a perda em massa de dirigentes e quadros. “Acredito que a Al-Qaeda está desesperada”, afirmou Abrahms ao Correio. “Essa estratégia apela para iniciativas autônomas e ações de amadores. É por isso que a qualidade dos ataques despencou”, opinou. Ele não descarta que esse padrão operativo esteja por trás também do atentado contra a Maratona de Boston, atribuído aos irmãos Tsarnaev, de origem chechena. “A ação deles é consistente com essa estratégia.” 

O presidente francês, François Hollande, condenou o atentado em Trípoli e disse esperar que a Líbia “lance toda a luz” sobre o episódio. “Esse ato toma como alvo, por meio da França, todos os países da comunidade internacional que participam da luta contra o terrorismo”, declarou Hollande. A França, protagonista na ação militar que levou à derrocada da ditadura de Kadafi, há pouco menos de dois anos, foi ameaçada pela Al-Qaeda do Magreb Islâmico (AQMI, braço da rede no norte africano) de sofrer retaliações pela recente intervenção militar no Mali. O governo brasileiro repudiou “veemente” o ataque, em nota divulgada pelo Itamaraty. 

O período pós-queda do ditador Muammar Kadafi (outubro de 2011), em que a Líbia tenta com dificuldade formar um governo de unidade, tem sido marcado pela insegurança. A embaixada francesa foi a segunda representação ocidental a ser alvo de ataque. Em 11 de setembro de 2012, uma ação contra o Consulado americano em Benghazi terminou com a morte do embaixador, Christopher Stevens. Apesar de autoridades dos EUA atribuírem inicialmente o episódio aos protestos contra um filme que denegria a imagem do islã, afirmaram mais tarde se tratar de um ato terrorista de militantes ligados a Al-Qaeda. Sua autoria, porém, nunca foi reivindicada. 

Plano de ataque

No Canadá, a Justiça decidiu manter presos, até pelo menos 23 de maio, os dois suspeitos detidos na véspera, sob suspeita de planejar o ataque contra um trem que liga o país aos EUA. Os dois foram identificados como Raed Jaser, 35 anos, e Chiheb Esseghaier, 30. Embora sem confirmação oficial, a imprensa local afirmou que o primeiro seria dos Emirados Árabes e o segundo, da Tunísia. O comissário James Malizia, da Real Polícia Montada do Canadá, disse que os acusados receberam “direções e instruções” de “elementos da Al-Qaeda no Irã”. O governo de Teerã considerou “ridículo” a afirmação. “Esperamos que os funcionários canadenses mostrem um pouco de sabedoria e prestem atenção à inteligência e à opinião pública mundial”, rebateu o chanceler iraniano, Ali Akbar Salehi. Embora algumas figuras importantes da organização estejam em prisão domiciliar no Irã desde os ataques de 11 de setembro de 2001, nunca houve evidências de que alguma tentativa de ataque ao Ocidente tenha partido de lá. 

Na Espanha, a prisão dos supostos militantes da rede foi resultado de uma investigação iniciada há mais de um ano pela polícia espanhola, em cooperação com a francesa e a marroquina. O ministro espanhol do Interior, Jorge Fernánez-Díaz, afirmou que o argelino Nou Mediouni e o marroquino Hassan El Jaaouani seriam “integrantes de uma célula radical pertencente à AQMI”. O ministro não descartou, porém, a possibilidade de eles terem agido como “lobos solitários”, a exemplo do que ocorreu em Boston, segundo as evidências iniciais recolhidas pelos investigadores nos EUA.

Esse ato toma como alvo, por meio da França, todos os países da comunidade internacional que participam da luta contra o terrorismo”
François Hollande, presidente francês

Essa estratégia apela para iniciativas autônomas e ações de amadores. Por isso a qualidade dos ataques (da Al-Qaeda) despencou”
Alex Abrahms, especialista em terrorismo da Universidade Johns Hopkins

Irmãos agiram em resposta a guerras

Destruição na representação da França em Trípoli: vingança pelas intervenções militares contra Kadafi, em 2011, e contra os extremistas islâmicos do Mali (Ismail Zitouny/Reuters
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Destruição na representação da França em Trípoli: vingança pelas intervenções militares contra Kadafi, em 2011, e contra os extremistas islâmicos do Mali

Os irmãos Tamerlan e Dzhokhar Tsarnaev, apontados como suspeitos do atentado de Boston, teriam agido em resposta à atividade americana no Iraque e no Afeganistão, afirmou o mais novo, Dzhokhar, 19 anos, que segue internado no Centro Médico Beth Israel. A informação foi divulgada pelo jornal Washington Post, que cita funcionários com acesso ao interrogatório feito com o rapaz no último domingo. Dzhokhar assumiu que ele e Tamerlan, 26, morto em troca de tiros com policiais, durante tentativa de fuga, agiram sozinhos e não mantinham relação com grupos extremistas. 

O FBI (polícia federal dos EUA) examinou celulares e computadores dos jovens e não encontrou nenhuma indicação de que tenham recebido ajuda externa. Segundo Dzhokhar, eles aprenderam a construir bombas caseiras seguindo instruções de uma revista on-line, publicada pela rede Al-Qaeda. Autoridades ainda tentam entender como ocorreu o processo de radicalização dos irmãos, que viveram nos Estados Unidos por cerca de 10 anos. Nascidos em uma família da Chechênia, região separatista russa, de maioria muçulmana, os jovens foram expostos a atrocidades da guerra, durante a infância, e chegaram a viver com os pais no vizinho Daguestão — outro foco de extremismo separatista. O pai dos suspeitos deve viajar hoje para os EUA, confirmou a mãe dos rapazes, Zubeidat Tsarnaeva, ainda inconformada e incrédula com as acusações.

A secretária de Segurança Interna, Janet Napolitano, confirmou ontem no Senado que o FBI tinha conhecimento da intenção de Tamerlan de viajar para a Rússia em 2012. A viagem não foi monitorada devido a um erro na grafia do nome do rapaz por um funcionário de companhia aérea, o que fez com que ele embarcasse sem despertar a atenção da polícia. Tamerlan passou quase seis meses no Daguestão, onde pode ter recebido treinamento de organizações extremistas. O FBI já havia investigado Tamerlan e descartado seu envolvimento com terrorismo, mas mantinha atenção, desde que o governo de Moscou alertou sobre atividades suspeitas. Quando voltou à América, o jovem abriu uma conta no YouTube, em que passou a postar vídeos fanáticos muçulmanos.

Apesar de religiosos, os irmãos não eram vistos com frequência na mesquita de Cambridge, o subúrbio universitário de Boston onde moravam, segundo nota da Sociedade Islâmica local. Nos últimos meses, porém, Tamerlan teria provocado distúrbios ao interromper pregações com as quais não concordava. De acordo com responsáveis pela mesquita, os rapazes não apresentavam nenhum comportamento violento. 

A mulher de Tamerlan, Katherine Russell, 24, uma americana convertida ao islã, está “absolutamente chocada”, de acordo com seu advogado, que conversou ontem com a imprensa. Ele reafirmou que Katherine e sua família desconheciam qualquer atividade terrorista dos irmãos Tsarnaev, e garantiu que “ela está fazendo tudo que pode para ajudar na investigação”.

Suspeito libertado

Preso na semana passada pelo FBI sob suspeita de ter enviado uma carta contaminada com ricina ao presidente Barack Obama, Paul Kevin Curtis, 45 anos, foi libertado ontem sob fiança. Defensor de Curtis, que faz cover do cantor Elvis Presley, Christi McCoy afirmou que nada foi encontrado no computador ou na casa de seu cliente que pudesse ligá-lo ao crime. Também ontem, uma nova carta, possivelmente contaminada com ricina, foi encontrada em uma base da Força Aérea nos arredores de Washington.


Joseny Cândido 2442013
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