sexta-feira, 31 de maio de 2013

SIM: A dor e a revolta de perder um familiar por falta de UTI

A dor e a revolta de perder um familiar por falta de UTI


Daniel Cardozo
daniel.cardozo@jornaldebrasilia.com.br

A dor de perder um parente desestabiliza famílias inteiras. Mas quando isso acontece em meio à espera por vaga em uma Unidade de Tratamento Intensivo (UTI), o sofrimento se mistura à   revolta.  Para tentar salvar  um ente querido, muitas pessoas recorrem à Justiça para garantir o tratamento, que deveria ser concedido automaticamente pelo Estado. No entanto, a realidade está longe de ser a ideal. Famílias que perderam alguém para a escassez de leitos no DF contaram ao JBr o que tiveram de passar.


Segundo dados da própria Secretaria de Saúde, no DF, em 2012, 169 pessoas morreram na fila da UTI, mesmo tendo decisão judicial para a internação.  

Uma sequência de problemas tirou a vida de Nilza Montalvão, 44 anos. A diarista sofria de pressão alta e teve um acidente vascular cerebral enquanto trabalhava. Segundo a família, Nilza passou pelos hospitais de Taguatinga (HRT), de Base (HBDF) e de Santa Maria (HRSM). Foi preciso uma ordem judicial para que a mulher conseguisse uma UTI. Mesmo assim, a unidade não era apropriada para o caso.

“O atendimento demorou   no Hospital de Base. Ela precisava de um exame, mas o procedimento só era feito em dias específicos. Com isso, ela ficou quase uma semana jogada na maca, esperando para saber qual era a gravidade”, diz o filho de Nilza, Tiago Montalvão, auxiliar administrativo.

Demora

Depois de feito o exame, ela conseguiu um leito e  precisou de uma cirurgia de emergência, que foi feita. Entretanto, era necessária a internação em uma UTI e a família recorreu à Defensoria Pública. A ordem judicial foi proferida, e somente após cinco dias a paciente foi transferida para o leito, no HRSM.

“Lá, os próprios médicos diziam que não eram especializados. Não tinha neurologista para tratar da minha mãe”, relembrou Tiago.

O marido de Nilza, o funcionário público João de Deus Nogueira, critica a falta de orientações no HBDF. “Não me disseram que ela tinha que ficar imóvel, usando fraldas, mas eu levei a Nilza ao banheiro umas oito vezes, sem que ninguém me dissesse nada”, disse.

Nilza morreu 24 dias após o AVC, aos 44 anos, deixando dois filhos, Tiago, 25, e Karine, 14, que estava grávida. “Minha mãe ajudou a arrumar o quarto do bebê, mas morreu antes de conhecer a criança. Ela era uma pessoa bastante alegre, trabalhadora”, afirmou Tiago.  

 A indignação tomou conta da família. “Se essas falhas não tivessem acontecido, ela estaria viva, com certeza”, lamentou João.

Manifestação para conseguir leito


Para os familiares de pacientes que encontraram dificuldades em conseguir leitos, é urgente a necessidade de rever a situação das UTIs do DF. No caso da promotora de vendas Euziane dos Anjos Mariano, a luta de seis meses terminou com a morte do pai, Francisco Mariano, 59 anos, também vítima de um AVC. A família também precisou entrar na Justiça para conseguir um leito de UTI. Foram idas e vindas dentro da área de tratamento intensivo.

Quando chegava à igreja, em setembro de 2011, Francisco sentiu dores fortes na cabeça e caiu. A família o levou ao Hospital de Base. “Não queriam fazer o prontuário   porque moramos em Águas Lindas (GO), mas o hospital de lá é uma vergonha”, reclamou Euziane.

Retorno

Foram dois meses de internação, mas dias depois de ter chegado em casa, Francisco passou mal e teve de ser levado novamente ao HBDF. Lá, começou a briga, já que a família acredita que ele precisava fazer cirurgia para a colocação de uma válvula no coração e, desta vez, era imprescindível a internação em   UTI. 

“Fizemos uma manifestação, chamamos a imprensa e pressionamos até conseguir a vaga. Ele entrou na UTI em 5 de dezembro e ficou só até o dia 17, com a explicação de que não tinham nada que fazer pra salvar a vida dele”, disse, indignada. Com muito custo, a família conseguiu outras internações, entre  13 e 24 de janeiro de 2012 e, depois, em 1° de março, dois dias antes de morrer.

“Eu tenho vergonha dessa saúde pública. Quem precisa dela pode jogar nas mãos de Deus. Alguns funcionários trabalham com amor, mas a gente via que a dedicação de alguns médicos não era suficiente, porque não tinha estrutura”, afirmou Euziane. “Se meu pai tivesse recebido um tratamento decente, estaria vivo”, salientou. Hoje, a família   luta na Justiça, com uma ação por omissão de socorro.

Depois de o Jornal de Brasília publicar reportagem mostrando a quantidade de pessoas que morreram no ano passado à espera de leitos,  o Ministério Público do DF pediu  acesso à Central de Regulação de Leitos de UTI, por entender que o serviço precisa de maior transparência. Em nota, o MPDFT salientou que, assim como ocorreu com a UTI de neurotrauma do Hospital de Base, inaugurada em agosto de 2012 sem condições de funcionamento, a Promotoria de Justiça de Defesa da Saúde (Prosus) expediu recomendação para que não fossem abertos novos leitos em desacordo com normas da Agência Nacional de Vigilância Sanitária.


“Só quem passa por isso   sabe”



A falta de estrutura também tirou a vida do pequeno João Paulo, em apenas um dia de vida. A mãe, Simone de Sousa Lima, 20 anos, estava grávida de oito meses do segundo filho e chegou ao Hospital   de Santa Maria em uma quinta-feira, quando a bolsa estourou. Apesar de ter tomado remédios para induzir o parto na sexta, Simone conseguiu dar à luz apenas no sábado à noite.  “Pedi várias vezes pra fazerem uma cesárea, mas me disseram que eu não  que tinha que querer. No fim, acabaram fazendo a cesárea”, diz.

Apenas no domingo, às 12h, a dona de casa pôde ver o filho e soube que João   precisava ser levado para uma UTI neo-natal, indisponível no hospital. A equipe de enfermagem disse à Simone que o transporte poderia ser feito às 14h, o que não foi possível, por falta de médicos para acompanhar o bebê. A informação seguinte foi de que o transporte poderia ter sido feito às 19h, mas uma médica teria se negado a acompanhar.

Morte

“A enfermeira avisou à médica que os   bebês que estavam no berçário não precisavam de acompanhamento, mas ela não quis ir. Depois me avisaram que o meu filho poderia morrer no caminho. Aí fiquei mais umas horas junto e ele morreu às 22h”, relembrou.

A dor de Simone não pode ser curada facilmente. Até   a filha mais velha, Stéfane, não   aceita  a perda. “Ela me pergunta quando o João Paulo virá para casa, quando eu vou buscar ele no céu. Só quem passa por isso   sabe como é a dor”, lamentou. “Ia ser um casalzinho, tinha comprado todo o enxoval. Ele seria salvo se não fosse isso”, disse.


Versão oficial

Na avaliação da Secretaria de Saúde do Distrito Federal, os 397 leitos de UTI do DF (80 conveniados ou contratados) seriam suficientes para atender a população do DF. A pasta alega que número acaba sendo insuficiente por conta da grande demanda vinda da Região Metropolitana, que sobrecarrega o sistema. Não existe estimativa de tempo médio de espera por leito, que pode variar de acordo com o tipo solicitado. Ainda de acordo com a pasta, quem consegue leito por decisão judicial tem prioridade na fila, passando na frente até de pacientes com casos mais graves. A Defensoria Pública já tem acesso ao sistema da Central de Regulação de Leitos de UTI.


Saiba mais
 

A Defensoria Pública já moveu 95 ações judiciais para leitos de internação em UTI de janeiro até abril deste ano. E em maio, os defensores relataram que a demanda tem aumentado.

Conforme o relatório da Secretaria de Saúde, que traz o balanço de 2012, no ano passado foram registradas 28,6 mil queixas a respeito da rede. É uma média de três por dia.

Entre as maiores dificuldades relatadas pelos pacientes estão a dificuldade o agendamento de consultas, e falta de medicamento na rede SUS.

O relatório da pasta revelou ainda que dos mais de R$ 3 bilhões reservados à área, restaram nada menos que R$ 355 milhões. Investimentos como a ampliação de unidades e construção das bases do Samu não saíram do papel, mesmo autorizados. 


Fonte: Da redação do clicabrasilia.com.br

joseny lopes 31052013
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