quinta-feira, 16 de maio de 2013

SIM: Estrangeiros ilegais e explorados


Polícia Federal encontra, em Samambaia, 80 bengaleses que vieram ao Brasil com a promessa de bons empregos e salários. Eles vivem em condições precárias. Investigadores apuram possível esquema de tráfico de pessoas e trabalho escravo

» KELLY ALMEIDA

Muitos dos bengaleses estão desempregados e dependem financeiramente dos aliciadores: para a PF, condições análogas ao trabalho escravo (Monique Renne/CB/D.A Press)
Muitos dos bengaleses estão desempregados e dependem financeiramente dos aliciadores: para a PF, condições análogas ao trabalho escravo

Sofijur Rahman mostra o passaporte e garante que vai tentar a vida em Brasília:
Sofijur Rahman mostra o passaporte e garante que vai tentar a vida em Brasília: "Não queremos ir embora"
 


Pelo menos 80 bengaleses vivem em situação ilegal e precária em Samambaia. Investigação de um ano da Polícia Federal indica que os estrangeiros foram trazidos para o Brasil, por conterrâneos, com a promessa de conseguirem empregos e salários altos. Para saírem de Bangladesh, na Ásia, e desembarcarem na capital federal, desembolsaram até US$ 12 mil cada um. Eram recebidos por aliciadores, que estariam pagando o aluguel da casa em que eles moram. Ontem, durante a Operação Liberdade, agentes da PF cumpriram mandados de busca e apreensão e vão investigar um possível esquema de tráfico internacional de pessoas e até de trabalho escravo. 

Os estrangeiros chegam ao Brasil pela Guiana Inglesa, pelo Peru e pela Bolívia, com o sonho de conquistar empregos com salários de até US$ 1,5 mil, como lhes era prometido. A realidade, porém, é bem diferente. Amontoados em casas de poucos cômodos, muitos deles, que esperavam trabalhar na construção civil ou em frigoríficos, estão desempregados. Não têm dinheiro nem sequer para ajudar nas despesas do aluguel. Com isso, ficam dependentes financeiramente dos chamados “coiotes” e não conseguem voltar ao país de origem. Mesmo assim, não querem retornar a Bangladesh. Ontem, durante a ação da Polícia Federal, os imigrantes recusaram a assistência oferecida pelos policiais. 

Muitos deles vivem como refugiados, inclusive os quatro aliciadores, de acordo com a polícia. Para a PF, as condições a que os bengaleses são submetidos podem ser consideradas análogas ao trabalho escravo. “Eles vêm com a promessa de receberem altos salários, pagam valores altos para viajarem e, aqui, por questões culturais e até de idioma, não conseguem empregos. Ficam dependendo dos coiotes e moram em casas pequenas com muitos deles”, detalha o delegado Dennis Cali, do Serviço de Repressão ao Trabalho Forçado da PF. 

O investigador explica que a Operação Liberdade pode ser um dos passos para que os policiais cheguem a um esquema de tráfico internacional, que não foi configurado até então, já que os estrangeiros não têm a documentação retida pelos coiotes e ficam livres para circulação. Até agora, a PF configurou os crimes de formação de quadrilha e introdução ilegal de estrangeiro no Brasil. Em Brasília, quatro aliciadores já foram identificados durante a investigação que teve início em maio do ano passado. A Justiça, no entanto, não autorizou o pedido de prisão deles. 

Vida melhor
O Correio conversou ontem com um grupo de bengaleses que chegaram a Brasília há cerca de um mês para tentar emprego e salários ‘dignos’. No endereço alvo da PF, em Samambaia, 10 homens dormem em colchões no chão. Garantem que estão no Brasil porque querem e não pretendem voltar a Bangladesh. Negam também que sejam vítimas de qualquer tipo de trabalho escravo. “Viemos por conta dos problemas políticos que nosso país enfrenta. Aqui, conseguimos, pelo menos, o dinheiro da comida. Lá, nem isso a gente consegue”, contou Mohmmed Anwar Hussaiv, em um inglês cheio de sotaque. 

Assim como Mohmmed, os outros imigrantes estão desempregados. Dispostos a trabalhar com serviços gerais e na construção civil, eles deram entrada com o pedido de refúgio para regularizar a situação migratória. Ao mostrar o passaporte, Sofijur Rahman afirma que vai tentar a vida em Brasília. “Não queremos ir embora. Estamos procurando emprego”, conta. Eles explicam que conseguiram chegar ao Brasil com a ajuda de pessoas em Bangladesh e que escolheram Samambaia porque conseguiram a casa com mais rapidez. Afirmam também que todas as residências da região onde estão os conterrâneos contam com pelo menos 10 deles. 

Para o procurador-geral do Trabalho, Luís Antônio Camargo de Melo, ainda é cedo para detectar um possível tráfico internacional para trabalho escravo. Camargo ressalta que situação a descoberta pela PF deve ser apurada com cautela. “A caracterização do tráfico se dá com o aliciamento para as explorações no trabalho, sexual ou de órgãos. A princípio, esses estrangeiros não ingressaram no Brasil para isso. Mas vamos apurar melhor, ficar atentos e buscar mais informações que esclareçam tudo”, diz o procurador.

sgt joseny candido 16052013
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